Não queremos migalhas

 

Se o 13 de maio é para ser comemorado, o aconselhável é que o façamos com reservas. A data representa um marco na história do Brasil, por conta da Lei Áurea, assinada em 1888 pela então princesa Isabel e que aboliu formalmente a escravidão no país. Esse fato nos foi ensinado na escola como um gesto de bondade, que libertou milhares de negros e negras de um sistema desumano e reconheceu que ninguém tinha o direito de explorar outro, independentemente de suas origens, gênero, etnia ou cor da pele.

No entanto, pouco, ou quase nunca, paramos para pensar no destino que a maioria dos ex-escravos teve, nem na situação de falta de oportunidades e de apagamento social à qual foi submetido esse contingente. Quando se viram livres do trabalho forçado no campo e nas casas das famílias da alta sociedade, aquela que já era uma expressiva parcela da população brasileira ficou sem moradia, terras, emprego e qualquer outra forma de subsistência. Simplesmente não tinham como assegurar a própria sobrevivência, nem de contribuir para o desenvolvimento da economia brasileira – até então estruturada sobre o escravagismo.

Os escravos libertos terminaram da pior forma possível: foram ostensivamente explorados, e, quando não serviam mais, descartados como lixo. Foram apartados da sociedade, e seus descendentes, discriminados até os dias de hoje. O racismo é uma chaga que não conseguimos extirpar do nosso país, o que se evidencia quando nos debruçamos sobre uma série de problemas com os quais ainda convivemos: a extrema desigualdade de renda, sendo que os negros e negras compõem a parcela mais pobre, menos instruída e com menor acesso ao mercado de trabalho, à educação e à saúde. Os afrodescendentes são também as principais vítimas da violência: podemos dizer tranquilamente que há um extermínio da juventude negra.

Para se ter uma ideia, os jovens negros constituem mais de um terço das vítimas de homicídios no Brasil. Dos 52.198 assassinatos ocorridos em 2011, 18.387 tiveram como vítimas homens negros entre 15 e 29 anos, ou seja, 35,2% do total. E, em Salvador, a cidade mais negra do mundo fora da África, o quadro não é diferente. Ou alguém já se esqueceu da chacina do Cabula, onde, em 2015, 12 rapazes foram executados pela polícia?

Este 13 de maio é, antes de tudo, um dia para lembramos que a luta contra o preconceito é uma missão que nunca terá fim. Para reafirmarmos que a vigília por nosso povo continuará indefinidamente; que exigimos nosso direito sagrado à vida e oportunidades de verdade a emprego e a serviços básicos essenciais à nossa dignidade. Neste 13 de maio, precisamos gritar que não queremos migalhas.

*Ireuda Silva é vereadora pelo PRB Salvador (BA)

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