Em busca dos pequenos gênios

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A escola brasileira não está preparada para identificar os alunos superdotados e nem é capaz de lhes proporcionar serviços pedagógicos suplementares.

 

Carl Friedrich Gauss (1777-1855) é considerado o maior matemático de todos os tempos. Foi para a escola com oito anos. Na primeira aula assombrou o professor ao solucionar rapidamente um problema que deveria manter a turma ocupada durante toda a manhã: somar os números entre um e cem.

Em vez de fazer as operações aritméticas, como era esperado, o pequeno Gauss notou que somando os extremos da série –1 mais 99, 2 mais 98, e assim por diante– sempre obtinha cem. Montou de relance uma fórmula e entregou o resultado correto. Nasceram ali as teorias das progressões aritmética e geométrica, dos arranjos, das permutações e das combinações, que hoje nos permitem escolher sem repetições as placas de trânsito e os números de celulares, por exemplo.

O professor solicitou e obteve uma bolsa de estudos para o menino. Graças a isso, o talento de Gauss floresceu. Morreu com 77 anos, deixando uma obra extensa. Era um superdotado e foi reconhecido como tal, no momento certo.

Evariste Galois (1811-1832), ao contrário, foi expulso da escola e teve uma adolescência marcada por diversas prisões. Era voluntarioso e indisciplinado. Desprezava os livros didáticos, mas nunca abandonou a paixão pela matemática. Com 20 anos, foi desafiado para um duelo.

Sabendo de antemão que não sairia com vida, dedicou suas últimas horas a pôr no papel as ideias que tinha, às quais ninguém prestara atenção. Deixou somente algumas dezenas de páginas, escritas de maneira quase ininteligível.

Onze anos depois, Joseph Liouville anunciou ao mundo que o jovem Galois resolvera um dos grandes problemas da história da matemática, tendo descoberto um método novo, que veio a revolucionar a álgebra. Galois também era um superdotado, mas não foi reconhecido como tal, em vida.

Dois destinos que mostram a importância de um tema atual: a necessidade de criar mecanismos para identificar alunos superdotados para as ciências, as artes, a literatura e os esportes, para que possam desenvolver seus talentos e não sofram discriminações.

Os superdotados podem ser indisciplinados e hiperativos, por isso diagnosticados erroneamente e submetidos a tratamentos inadequados. Têm facilidade para aprender, mas podem demonstrar desinteresse nas aulas e nas lições de casa.

Nem sempre um superdotado é um excelente aluno. Por isso, o reconhecimento de sua condição não é trivial. Somente testes aplicados por psicólogos podem fazer o diagnóstico correto. A identificação precoce é muito importante, especialmente em crianças de baixa renda. Isso exige uma capacitação específica dos profissionais da educação.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que cerca de 5% da população possui algum tipo de alta habilidade. Isso equivale a 2,5 milhões de crianças que frequentam o nosso sistema público de educação básica. No entanto, o Censo Escolar de 2014 reconhece apenas 13 mil alunos nessa condição.

A escola brasileira não está preparada para identificar os alunos superdotados e nem é capaz de lhes proporcionar serviços pedagógicos suplementares.

Uma população de 200 milhões de habitantes deve ter cerca de 10 milhões de superdotados. Precisamos descobrir quem são, como quem garimpa ouro. Esse é o objetivo de um projeto de lei de minha autoria, que agora vai à sanção presidencial.

Ele estabelece que o Estado brasileiro definirá procedimentos para identificar, cadastrar e atender alunos com altas habilidades todos os níveis.

Os brasileirinhos que podem vir a ser um Gauss, um Mozart, um Guimarães Rosa ou um Messi merecem a chance de realizar seus talentos. A nação só tem a ganhar.

 

***Marcelo Crivella é senador pelo PRB Rio de Janeiro

Artigo publicado pelo Jornal Folha de S. Paulo em 03/11/2015

 

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